
Da última vez que vira Francisca, tinha ela cinco anos.
Era Verão, ou era apenas Mar, porque na cabeça dela Verão e Mar são um só. Fora eu sua professora e creio que a conservaria sempre nessa ignorância tão mais verdadeira.
Lembro-me de passar o dia a encher-lhe baldes de água e a fazer bolos na areia.
Francisca gostava do vaivém das ondas. De salpicar os meus braços com Mar. De enfeitar as bolachas de areia molhada com pedras.
Eu obedecia às suas doutas ordens e o sorriso com que mas dava era para mim o dogma que as tornava inquestionáveis.
Francisca é trigueira. Olhos e cabelo de um castanho muito escuro e brilhante.
Olhos infinitos e curiosos, que o mundo não terá de ser ajustado para caber neles.
Olhos bons e sinceros, que o mundo terá de ser ajustado para caber neles.
O que mais me comove na presença de Francisca é o seu incomensurável sorriso e os redemoínhos que desenha nas bochechas.
É a estabilidade do sorriso que o torna invulgarmente bonito e estanca o meu.
Vergílio Ferreira não achava possível sentir a morte com árvores matinais e casas brancas por todo o lado.
"Venho de luto, o meu pai morreu. Que têm que fazer, em face da minha dor, da minha alucinação, estas árvores matinais da avenida que percorro, a branca aparição desta cidade-ermida?"
O sorriso de Francisca é igual a essa a branca aparição de uma cidade-ermida porque quando olho para ele, só julgo possível a vida.
Reencontrei-a agora, crescera mais um inverno e uma primavera sobre ela.
O sorriso, sempre.
Os redemoínhos, também.
Julguei, porém, que não viria mais com ela aquele dia na praia.
" - Tu ficaste na praia, não foi?Deves ter frio" - pergunta-me como quem sabe.
Ela já me vira entretanto, há uns meses, na rua, fazia inverno devagar nos rostos que nos rodeavam.
Como explicar então que a sua memória só tenha arquivado o Verão?
Como explicar que a nossa imagem tenha ficado refém do vaivém das ondas e as nossas gargalhadas presas em baldes de água?
Eu gostava de voltar a ter a memória de uma Francisca que imobiliza as pessoas nas fotografias da vida onde foram mais felizes.
[" Charlotte", pintura de Anne Goffin Smith]



