19.8.09

Francisca, ou o impossível sorriso.



Da última vez que vira Francisca, tinha ela cinco anos.

Era Verão, ou era apenas Mar, porque na cabeça dela Verão e Mar são um só. Fora eu sua professora e creio que a conservaria sempre nessa ignorância tão mais verdadeira.

Lembro-me de passar o dia a encher-lhe baldes de água e a fazer bolos na areia.

Francisca gostava do vaivém das ondas. De salpicar os meus braços com Mar. De enfeitar as bolachas de areia molhada com pedras.

Eu obedecia às suas doutas ordens e o sorriso com que mas dava era para mim o dogma que as tornava inquestionáveis.

Francisca é trigueira. Olhos e cabelo de um castanho muito escuro e brilhante.

Olhos infinitos e curiosos, que o mundo não terá de ser ajustado para caber neles.

Olhos bons e sinceros, que o mundo terá de ser ajustado para caber neles.

O que mais me comove na presença de Francisca é o seu incomensurável sorriso e os redemoínhos que desenha nas bochechas.

É a estabilidade do sorriso que o torna invulgarmente bonito e estanca o meu.



Vergílio Ferreira não achava possível sentir a morte com árvores matinais e casas brancas por todo o lado.

"Venho de luto, o meu pai morreu. Que têm que fazer, em face da minha dor, da minha alucinação, estas árvores matinais da avenida que percorro, a branca aparição desta cidade-ermida?"


O sorriso de Francisca é igual a essa a branca aparição de uma cidade-ermida porque quando olho para ele, só julgo possível a vida.


Reencontrei-a agora, crescera mais um inverno e uma primavera sobre ela.

O sorriso, sempre.

Os redemoínhos, também.

Julguei, porém, que não viria mais com ela aquele dia na praia.
Não mais com ela os baldes de água e as bolachas enfeitadas de pedras.


" - Tu ficaste na praia, não foi?Deves ter frio" - pergunta-me como quem sabe.


Ela já me vira entretanto, há uns meses, na rua, fazia inverno devagar nos rostos que nos rodeavam.

Como explicar então que a sua memória só tenha arquivado o Verão?

Como explicar que a nossa imagem tenha ficado refém do vaivém das ondas e as nossas gargalhadas presas em baldes de água?

Eu gostava de voltar a ter a memória de uma Francisca que imobiliza as pessoas nas fotografias da vida onde foram mais felizes.
Para com elas reacender o seu impossível sorriso a cada instante.

[" Charlotte", pintura de Anne Goffin Smith]

12.8.09

And I Love Her.

5.8.09

Mister Bojangles.



I knew a man Bojangles
And he danced for you
In worn out shoes
With silver hair, a ragged shirt
And baggy pants, the old soft shoe
He jumped so high, he jumped so high
Then he lightly touched down

I met him in a cell in New Orleans
I was down and out
He looked at me to be the eyes of age
As he spoke right out
He talked of life, he talked of life
He laughed, and slapped his leg a step
Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!

He said his name, Bojangles
then he danced a lick across the cellHe grabbed his pants
a better stance
Oh, he jumped up high
he clicked his heels
He let go a laugh, he let go a laugh
Shook back his clothes all around

He danced for those
At minstrel shows and county fairs
Throughout the south
He spoke with tears of 15 years
How his dog and he traveled about
His dog up and died, he up and died
After 20 years he still grieves

Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!

He said I dance now
At every chance in honky tonks
For drinks and tips
But most of the time
I spend behind these county bars
He said I drinks a bit

He shook his head
And as he shook his head
I heard someone respectfully ask
Please

Mr. Bojangles, Mr. Bojangles
Mr. Bojangles, dance!

18.7.09

A casa.





A casa não é bonita.

É vulgar. Lembra-me as casas que eu desenhava no colégio: um quadrado com um triângulo por cima a fingir de telhado. Duas janelas. Uma porta. Algumas flores nos canteiros. Um portão verde. Um terraço com vista para um quintal. E um tanque cheio de água.

Tudo vulgar. O tanque não é de pedra antiga. O telhado não é castiço nem as janelas são de guilhotina. O quintal não tem hera nem uma alameda de tílias. Não estão plantadas margaridas nem o singelo vivaz. Não era o cenário mais incrível para "A cidade e as serras" ou "Os Serões da Província".

Tudo seria vulgar se tu não te confundisses com a casa.

Se as duas janelas não tivessem o teu rosto santo eternamente pendurado nos vidros.

Se as flores que eu vejo nos canteiros não fossem sempre hydrangeas e o que de ti ficou a cortá-las comigo.

Para mim, os objectos perderam a sua matéria e os espaços a sua essência porque herdaram o encantamento implausível de serem prolongamentos da tua.



O quintal é bonito porque tem saudades dos teus olhos que o vigiavam do terraço.

O teu leite creme torrado demora-se pelos cantos da casa e o sabão rosa com que lavavas alguma roupa impregnou certamente o declive do tanque.

A lareira já não tem, mas terá sempre, as minhas botas sujas de colégio, ensopadas de chuva, junto ao divisor que as protegia das chamas e do fumo.

Eu não poderia continuar na sala se não ouvisse, a todo o instante, o teu andar vagaroso pela casa
a marcar com um brilho invisível de bondade tudo em que tocas.

Nem conseguiria subir as íngremes escadas do sotão se não me lembrasse que vens sempre atrás com receio da minha queda.

Tudo naquela casa será infinitamente precioso por te espalhar no vácuo.

Tudo na minha vida será menos inquieto por me lembrar que não há escada que suba sem que venhas atrás com receio da minha queda.

29.6.09

27.6.09



Ele não sonhou que o olhar dela ficou cativo do seu.

E que os dois ficaram eternamente imóveis numa sintonia de brilhos.




[painel de Maria Helena Vieira da Silva, retratando-a com Arpad Szénes]

22.6.09

Emiliana Torrini : Hold heart.




n.b.: on june 22nd., room 413 had this original soundtrack thanks to m.milk&his cats.

17.6.09

Lá, onde a nuvem não chega.

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O comboio regional furava a noite no seu passo velho e tosco. De Faro a Tavira. Janelas semi-abertas numa noite de Junho, e o mar a entrar por meio delas sob a forma de um cheiro intenso a sargaço.

Tu ias de sonho pousado nesse cheiro a sargaço e imaginavas que o comboio viajava mesmo rente à linha que dividia o mar da areia astrada de algas.

À tua frente, dois velhos traziam um rosto que eu já não via há muito tempo.

Há rostos que eu deixei de ver, apercebi-me nesse momento.

Um deles parecia estar escondido desde sempre na gaveta empoeirada duma mercearia antiga.

O outro... eu não sei descrever o outro, mas podia jurar que, desencadeasse eu a conversa, e dir-me-ia que o tempo quente continuaria porque ontem fora noite de lua nova.

É que este rosto podia ser, afinal, o do meu avô. E falaria, como o meu avô, de toda uma mecânica afinada entre lua, vento, mar e tempo, com a sabedoria que as rugas fizeram mais serena e certeira que uma verdade científica.

O comboio deixava-se enamorar por cada apeadeiro e nele se deixava ficar, multiplicando os minutos, esticando o País.

Eu estava muito habituada às pausas prolongadas dos comboios, como se todos eles tivessem conspirado estender as pernas a meio do caminho para me obrigarem a parar, desafiando a paciência e o cansaço.

Preocupavam-se comigo, os comboios.

Dentro dos comboios de pausas prolongadas, reencontrava-me com os livros e com a música. Com o meu punho, o meu lápis e a minha escrita.

Saí do comboio regional, de Faro a Tavira, como quem sai de um fim de semana prolongado.

Quando o fim de semana prolongado estava a um apeadeiro de começar.

23.5.09

Colar de pérolas.

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Tinhas uma figura alta e esguia, como um fino tronco de árvore que desarmava por tão elegante.

Lembrar-me agora de ti é lembrar-me do verde-água e do azul indefinido.

O teu cabelo era de um cinza que hesitava entre o claro e o escuro. Sempre me pareceste um colar de pérolas dessa cor indecisa, que nunca envelheceria.

À tua volta, sim, envelheciam.

E falavam de dores e doenças, de passado, de muito pretérito imperfeito feliz.

Tu não. Tu ouvias ligeiramente os outros e colavas-te às conversas dos mais novos. Procuravas qualquer coisa na nossa vida, nos agudos da nossa voz, na inocência dos nossos sonhos e na ingenuidade dos nossos olhos que te revitalizava, como se a tua vida se fosse demorar mais anos
pelo facto de existir a nossa.

Eras presente e futuro e respondias com futuro e presente ao pretérito imperfeito feliz dos
outros.

Pensar-te-iam fria porque pouco saudosista. Eu percebia que não. Eu sabia que trazias cada saudade agarrada como concha às extremidades da alma e que o facto de as calares com o futuro era uma auto-medicação para que te doessem menos.

Eu gostava de ti assim, com essa ligeira altivez que os olhos desmentiam. Eu tomei sempre essa altivez como um sinal da tua garra, da tua imbatibilidade. E nunca um tronco tão fino se me afigurou tão inquebrável.

Não sei por que nos lembramos de certos lugares, às vezes, à noite, nem por que é que sentimos a falta desses lugares”, há um verso do Nuno Júdice assim.

Eu lembro-me de ti em certas alturas particulares da minha vida, a certas horas, com um determinado vento a fazer-me companhia e a mesma música a imitá-lo.

Eu lembro-me de quando o teu tronco se vergou e eu fui visitar-te porque achei que era mentira isso que andavam para aí a dizer sobre o teu tronco se ter vergado.

Estavas sentada num sofá e toda tu continuavas verde-água e azul indefinido. O teu cabelo era, na mesma, um colar de pérolas que nunca envelheceria.

Havia uma aguarela em cima da lareira com o trémulo esboço de uma janela. Como podia sair tanta luz de uma aguarela?

Falavam-me da tua doença, de como te recusavas a comer, de como não te portavas bem. Tu fazias-te de surda às palavras remédios, comida, vais ficar melhor, vais, vais, vais.

Centraste habilidosamente toda a conversa em mim e na minha juventude. Como vai a escola e como vai a escrita. Eu contei-te episódios da minha vida que te fizessem rir e inventei outros para que te risses mais. Fui anedótica porque não queria a tua voz sumida e frágil. Queria o teu certo modo de altivez que era sinónimo de invencibilidade.

Era um fim de tarde de Inverno.

Como eu detesto o Inverno, tia” - disse eu, como se toda a culpa de ela estar assim fosse do Inverno. Acho agora que essa foi a minha forma escondida de lhe dizer que recuperaria. Bastava que o Inverno passasse.

A sala não estava escura nem escurecia. A conversa, sim, escurecia a sala.

Acende todos os candeeiros, M.!” – pediu ela.

M. respondeu que ela estava a exagerar, que a sala não estava assim tão sombria e que, com os candeeiros todos ligados, ficaria a parecer um arraial minhoto.

Pois que fique a parecer um arraial minhoto. Eu quero os candeeiros todos ligados na mesma.”


Vou lembrar-me de ti sempre que a vida se afunilar numa sala mais escura.
E acenderei os candeeiros todos.
[pintura de Egon Schiele]

1.5.09

Singularidades de Uma Rapariga Loura.

28 de Abril de 2009.
Antestreia nacional do filme "Singularidades de uma rapariga loura" no Cinema São Jorge, no âmbito do festival Indie Lisboa.
Do outro lado da Avenida da Liberdade, vê-se um tecido confuso de gente e focos de luz. Aglomeram-se grupos de jovens à entrada.
Julgo ter-me enganado: um filme do Manoel de Oliveira e uma multidão de gente expectante parecem-me um gigante paradoxo.

"O próprio vai cá estar" - ouve-se entredentes - " E haverá inevitavelmente uma espécie de homenagem".

Ante estreias, figuras públicas, homenagens, políticos, show off, já me parecem mais rimáveis com o aglomerado de gente.

Auditório cheio, portanto. Alguém introduz o mestre que dispensa introduções. Uma estrondosa ovação em pé encolhe o realizador franzino que agradece comovido.

"Eu ando para aqui a fingir que sou novo, não é?(...) Espero que gostem desta história".

Caminha com pés de 70 e olhos de 20 anos. Os sonhos realizados e o sem fim de novos projectos estagnaram os olhos de Manoel de Oliveira na juventude.

O aglomerado de gente jovem emudece: alguém nos trocou os papéis?

"O filme é uma (boa) história", como o próprio humildemente caracterizou. A adaptação do conto de Eça de Queirós tem certas subtilezas a que o realizador não deu o relevo que se justificava. A personagem Luísa foi concebida por Eça com uma densidade psicológica que vai além do perfil sedutor e misterioso bem interpretado por Catarina Wallenstein.

Imaginativos, porém, e particularmente distintivos da realização à monsieur Oliveira, continuam os ângulos donde filma o personagem, a nobre casa tradicional portuguesa, o diálogo grave e parco em palavras que dá solenidade e requinte à história.

Oliveira filma parcialmente o afecto porque o resto se adivinha. Não filma o beijo, filma o pé da singular rapariga loura que se estica levemente. É pelo pé que se adivinha o beijo.

E os sentimentos, colocados sob uma renda que só deixa entrever o essencial, adquirem uma graça singular que torna indelével a vida.

Singularidades... de quem soube filmá-las.



luz-oblíquAholics (desde 5/09/08)